• Helga

Vai dar certo

Atualizado: 11 de out.


Na mesa tinha jarra de suco de caju feito com a fruta, cuscuz saindo fumaça regado no leite de coco raiz, inhame, queijo de coalho derretido, tapioca com manteiga de lata, bolo de milho, ovos mexidos, frutas variadas e banana cozida polvilhada com açúcar e canela. No prato central pousavam torradas de pão francês feitas com três cortes na transversal, em que a parte do meio era sempre a minha preferida. O café da manhã na casa da minha tia em João Pessoa reunia todo mundo e era o verdadeiro passaporte para a felicidade.

Passei muitas férias da infância e adolescência na Paraíba, terra em que nasci e deixei antes mesmo de completar dois anos, quando meu pai passou em um concurso público na terra da garoa. Em São Paulo meus cafés da manhã não tinham nem de longe a variedade e os quitutes da mesa colorida da minha tia e nem tanta gente reunida, mas sempre considerei essa refeição a mais especial. Me sentava à mesa, bebia leite com Nescau e comia pão de forma com margarina, trazendo na lembrança a atmosfera de celebração que havia na casa da minha tia durante o café da manhã e que parecia nos abraçar antes mesmo do dia começar.

Sim, celebração era a palavra. A comida variada e apetitosa celebrava o dia. Era ela que nos convidava a dar uma chance para as próximas horas que se rascunhavam. Como não se agradar com esse convite em forma de cheiro e sabor? Depois daquele café da manhã incrível o que podia dar errado? Eu saia farta e alegre daquela mesa apostando todas as fichas no dia, sem medo de ser feliz.

Até hoje minha primeira refeição ao acordar é esperada. Ponho a mesa para a família, escolho a toalha e a louça, corto as frutas e faço um café gostoso. Troquei o leite com Nescau pelo café com leite e o pão de forma com margarina pelo pão francês com manteiga ou uma tapioca. Começo pela fruta e aproveito a experiência sem pressa. Se não consigo tomar o café da manhã por algum contratempo prefiro sair sem nada na barriga, fazer o que tenho que fazer e parar quando puder, seja a hora que calhar, para tomá-lo como merece. Se acordar às 6h ou às 13h minha primeira refeição vai ser sempre o café da manhã.

A memória afetiva transforma todo dia minha primeira refeição em banquete. Tenha o que tiver na mesa. No café da manhã sou uma pessoa melhor, ilesa, ainda, do peso das demandas que vão surgir nas próximas horas. O café da manhã me diz todo dia que vai dar certo, haja vista o cheirinho de pão quente. Eu sigo acreditando.