• Helga

Terapia de casal

Atualizado: 11 de out.


_ Ela não me deixa fazer nada! Vive criticando tudo o que faço! Fico feito bobo atendendo seus apelos e estou no meu limite. Já nem sei mais quem sou.

_ Isso não é verdade! Replicou ela ofendida. Então levanta da cadeira, passa a mão nos cabelos e dá passos em direção da porta.

_ Tá vendo só? Ela foge de tudo! Morde e depois corre! Quando ouve umas verdades entra em pânico e então paralisa. Depois se esconde e se isola do mundo, se fazendo de coitadinha. Conheço essa novela! A verdade é que é mimada de marré deci! É o serviço militar se fazendo de anjo da guarda!

Ela recua e se senta novamente na cadeira. Os nervos estão à flor da pele. O estômago contrai e uma cólica vai se formando de fininho. Olha para os pés e depois pro analista. A vontade é de gritar, mas a voz é baixa e calma.

_ Eu também estou cansada. Passo o dia evitando que ele se machuque. Tudo que faz é tão superlativo e midiático que antevejo sua queda. Sempre quer ser o centro das atenções, mostrar uma excelência que não pode sustentar e escolher caminhos perigosos. É carente e arruma pelo em ovo quando tudo está bem; briga por nada, chora por tudo. Se não fosse eu segurando as pontas ele iria desmoronar!

Ele coça a cabeça, dá uma gargalhada cínica e olha pela janela. Respira fundo. Agora é ele quem levanta e caminha em direção à porta. Mas volta. Olha para ela com olhos de fúria. Coração dispara, o ar parece faltar e a boca tem gosto de raiva.

_ Eu devia mesmo era ir embora. Te deixar para sempre. É tanta besteira que eu tenho ouvido há tanto tempo que a minha vontade é de te jogar pela janela! Você é uma sem graça reprimida! Viciada em infelicidade e antena de problemas imaginários! Onde você acha que vai chegar com tudo isso? Essa sua vidinha medíocre me dá arrepios! Zero novidade, zero tesão.


_ Quem você acha que tá enganando? Pra quê todo esse discurso de rei da cocada preta? Eu sei de todas as vezes que você achou que tava tomando conta da situação, vivendo uma felicidade desatenta, e a coisa ficou bem feia! Terminou a noite chorando em posição fetal.

_ Mas e quando pude sentir o gostinho do sucesso? Não conta? Você não sabe o que é isso! Da vida pulsar em todos os sentidos. Quando consegui escapar da sua vigilância e sentei no meu trono, vendo toda a plateia aplaudir de pé! Como isso foi alimento pra mim. Não, você nem tem ideia!

_ Você é um arrogante! Acha que abafa mas é motivo de gozação pelas costas! As pessoas riem de você, essa é a verdade. Da sua incapacidade de perceber o quanto o que faz é limitado e nada espetacular como acredita! Mas você não consegue se controlar e vive buscando motivos para aparecer de qualquer maneira, mesmo que seja com bobagens que chama de dom. Força a barra. Daí quando nota a falta de apoio das pessoas põe a culpa na inveja! Todo mundo tem inveja de você, né Ivete Sangalo?

_ Me acho acima da média mesmo! Sou especial e a maioria das pessoas não gosta de gente especial. Sou ponto fora da curva. Quem aguenta o sucesso do outro? O brilho do outro? É muito mais fácil estimular que todo mundo fique apagadinho no seu canto dividindo infelicidades. Quando alguém se destaca é ostensivo e pedante e a geral se junta para martelar a cabeça do preguinho pretensioso. Bando de invejosos mesmo!

_ Você gosta de amassar as pessoas. Sente prazer em sentir essa superioridade pedante. Faz questão de mostrar o que nunca ninguém pensou só pra se divertir com o embaraço alheio!

_ Melhor do que ser amassado por todo mundo como você. Passam com um trator na sua cabeça e você deixa. Se acha nada. É uma agradadora compulsiva e assim barganha atenção. Esconde suas feridas para que o projeto “pessoa que deu muito certo” continue enganando todo mundo.

O analista se levanta e anda em direção da porta. Põe a mão na maçaneta e abre. Olha para o casal sem sinal de arrependimento. A decisão estava tomada. Há muito.

_ Saiam dessa sala, por favor. Não tenho mais nada a dizer. Meu ouvido agora é mouco.

Entendendo que havia um ponto final a Vergonha e o Ego saíram sem dizer nada. Deram as mãos como faziam desde sempre. Sabiam, pela experiência, que não seria difícil encontrar outro espaço para ruminar sua guerra fria. Questão de tempo e estariam juntos, num outro divã.

Naquela manhã a mente parecia surpreendentemente desabitada. A porta, escancarada, convidava ao silêncio. Tudo vazio. Nem o analista apareceu. Dizem que anda pelas bandas de Florença, em ano sabático. Então, como há muito não acontecia, todo o resto era alívio.



Crédito da imagem: @lutherpaola