• Helga

Esconde-esconde

Atualizado: 11 de out.


Chego de fininho. Não quero assustá-la. Espio primeiro no cantinho da porta com um olho só. O ateliê parece vazio. Entro desanimada admitindo que ela foi mais rápida do que eu. Percebe


u meu pé ante pé e se camuflou em algum objeto dos tantos que tenho. Mas não desisto.


A mesa de cerejeira está repleta de coisas. Ela pode muito bem estar entre as cúpulas, garrafas de vidro que virarão suporte para abajures, duas máquinas fotográficas, um tripé, molduras, telas em branco, telas mezzo pintadas, canetas, pincéis, livros, materiais de escritório, meu notebook, mousepad, baralho de tarô e celular. Mas não está. Me demoro olhando cada um deles, como um detetor de mentiras determinado: “Diga sem titubear, ela está atrás de você?” Meu polígrafo intuitivo revela que eles dizem a verdade. Não, ela não está escondida ali.


O ateliê é uma salinha retangular em que a mesa de madeira toma todo o comprimento. A mesa foi feita sob medida e se estende em um painel do mesmo material, que sobe na parede até uma prateleira branca. Passo os olhos atentamente sobre o painel. Investigo o quadro de moldura amarela que estampa minha personagem de filme favorita, Amélie Poulain, sustentando um sorriso de Monalisa. Não, ela não está com Amélie. Talvez tenha viajado com o duende do jardim do pai de Amélie, quem sabe.



Continuo a inspeção e leio cada referência que escrevi em post its motivacionais. Não a encontro em “grande criador eu me encarrego da quantidade e você da qualidade”, nem tampouco em “crochê é a nova ioga”. Ela não está nas escritas nem nas fotos que tenho com meu amor e meus filhos. Não a vejo, também, nos cartões postais que estampam a cidade de Roma e a águia bacanuda da artista visual Angélica Fernandes. Nem também a vejo no pequeno quebra-cabeça montado por mim que traz desenhos dos pontos mais lindos de Paris. Nadinha dela.


Quem sabe a prateleira branca que se inicia ao final do painel me dê boas pistas. Mas não acontece. Meus pincéis, tintas, espátulas, fitas crepes, massas corridas, vernizes e bases estão sozinhos. O armário de portas brancas acima da prateleira também não esconde a fugitiva.


Atrás da mesa de cerejeira há uma estante de livros e apoiada nela está meu cavalete. Perpasso atentamente os livros em busca de um estalo dos sentidos, da faísca dela que acende minha mente, acelera meu coração e às vezes me tira o ar por instantes. Sempre me demoro mais nessa estante. Porque tenho de tudo um pouco: arte, romances, poesia, quadrinhos, autoajuda, clássicos... e de várias fases da vida. Que o diga “Pollyanna” que me apaixonei na adolescência e releio sempre que posso. O devaneio dá lugar a agonia. Tenho um mau pressentimento: será que ela se foi de vez?


Arrisco tirar uns álbuns de fotografia da estante e entre imagens que me emocionam dos meninos pequenos e de amigas queridas cai na mão uma foto 3X4 revestida de plástico, com algumas argolinhas escurecidas do chaveiro que era. Ali estava minha avó Nadir, mãe do meu pai.




“Vó, quero encontrar você depois do arco-íris e juntas vamos descobrir o pote de ouro da felicidade”, “vó, o que você mais ensinou para a família foi a união”, “vó, você é doce de leite”, “vó seus olhos brilham mais que diamante”. Bença, vó. Ainda guardo essas cartinhas que te dei e voltaram as minhas mãos depois que você se foi.


Você era tudo isso mesmo: brilho, felicidade, união e doce de leite. Nos seus olhos eu me vi especial desde sempre. No seu sorriso eu vi aceitação. Então eu botava para quebrar e fazia tudo que meu coração miúdo pedia. Porque era para você. Você estava nos teatrinhos que eu escrevia a história, dirigia os primos e encenava. Também tinha você nos livrinhos ilustrados e nas mensagens de aniversário para os familiares e para ler nas festas da associação de amigos do bairro em que você fazia parte, em Bertioga. Você sentia orgulho e eu liberdade. Foi ali que eu e a criatividade fizemos amizade.


Mas como tudo que não se cuida, a amizade foi se esgarçando. Nunca mais brincamos soltas no parquinho porque com o tempo não caía bem. Fui ficando com vergonha da sua companhia, essa é a verdade. Ela parecia extravagante demais. Rebelde demais. E de repente eu queria mesmo era me encaixar. A criatividade que não se deixa laçar, arrumou novas amizades.


O esconde-esconde diário é minha penitência por tê-la deixado de lado por tanto tempo. Ela brinca comigo para desarmar meus mi mi mis e me dá uma canseira danada. T


em funcionado. Durante a busca deixo ir minha vontade de me encaixar e me lembro da alegria do parquinho. Era feliz e sabia.


Vez ou outra ela se deixa encontrar, dentro de uma cúpula ou embaixo do vestido de Amélie no quadro de moldura amarela. Daí somos crianças extravagantes de novo e temos uma avó para alegrar.