• Helga

O caminho da artista

Atualizado: 11 de out.


O que há em comum entre mim, a cartunista Laerte e a torcida do Corinthians? Todos, em algum momento da vida ou em vários, nos sen


timos impostores da própria história. A sensação, assim como a do medo, do amor, da raiva e da alegria, é inerente ao ser humano, universal. Quem nunca se sentiu um farsante põe o dedo aqui!...rs

No documentário Laerte-se, de Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum, Laerte revela seu medo de ser um embuste. Com talento e sensibilidade ímpares, carreira consolidada e coragem para assumir com desenvoltura a mulher que sempre foi, após viver quase toda vida como homem, ainda há nela a insegurança típica dos iniciantes ao colocar os pés no mercado de trabalho.


Se o medo de ser uma fraude acontece com quem alcançou sucesso profissional como ela, imagina pra geral? Vem que vem danado, sem freio de mão. Que o diga eu e a torcida do Corinthians. A última vez que senti esse desassossego em alto grau foi há pouco mais de um ano quando comprei um curso on-line sobre como tornar sua arte uma profissão. Mal sabia que não seria um daqueles cursos que eu costumava comprar para assistir quando pudesse e nunca concluir. E que me revelaria a artista plástica que sou e sempre fui.


Era final de 2019 e eu já pintava há uns anos como hobby. Criava quadros para decorar meus ambientes ou presentear familiares e amigos. Já havia alugado uma sala para produzir telas maiores, quando morava em apartamento, e agora, na nova casa, tinha um pequeno ateliê. Ali produzia, sem pressa ou pretensão, minhas telas coloridas. Foi quando o curso fermentou meu desejo de espalhar arte pelos cantos, sem eu mesmo saber que esse sonho morava em mim.


O chamado da aventura que se avizinhava aconteceu quando


a artista mentora abriu um grupo no whatsapp dos alunos. E então junto com o conteúdo teórico vieram desafios para serem entregues em prazos estabelecidos. Percebi que não haveria como fugir e teria que enfrentar o medo de mostrar o que fazia ali no anonimato do meu pequeno ateliê, que em casa é chamado de “salinha”.


Comecei a postar meus quadros em redes sociais, refletir sobre crenças limitantes que me fizeram abafar minhas habilidades manuais e fazer planejamento de negócios e do que minha arte poderia gerar. No meio de tudo isso o medo me assombrou e a sensação de estar dando passos demais com pernas curtas e mancas foi muito presente. A relutância às mudanças de interesses que estavam acontecendo no meu interior me consumia e me enchia de culpa por estar seguindo “o coração”, sem os dois pés na realidade.


No turbilhão de emoções conflitantes que senti optei por ser honesta comigo nas dúvidas quanto a me considerar uma artista de verdade e aos passos futuros a seguir. Dividi minhas preocupações com a professora mentora e ela me guiou com sabedoria a parir com afeto a artista real que havia em mim e que teria espaço e valor, seja qual fosse o caminho escolhido. Eu precisaria aceitá-la para que o mundo a enxergasse também.


A prova de fogo não foram as entregas dos desafios nos prazos, nem mesmo foi o término do curso. O teste maior foi exercitar a coragem para mostrar a mim mesma e ao mundo que minha arte, tal como era, tinha sede de acont


ecer. Não se importava, como eu, em agradar ou ser palatável, era livre e sem amarras. Precisava achar seu lugar.


Compreender o propósito maior da arte na minha vida foi o grande elixir dessa viagem. E aceitar que a criatividade sem freios abriu a caixa de Pandora e liberou tudo o que havia nela, para o bem e para o mal, me fez uma artista real, que tateava a luz e a sombra e minha própria humanidade.


Entendimento é sempre liberdade. Laerte continua criando e dando vida aos seus personagens com toda a insegurança que lhe ronda. Assim como eu e a torcida do Corinthians, sabe, intuitivamente, que a síndrome do impostor é também uma oportunidade de descoberta de si mesmo.