• Helga

Mudando de casa

Atualizado: 11 de out.


"Menina com fundo florido" foi a primeira releitura que fiz do artista americano Richard Diebenkorn. Thiago Haidar, meu professor à época, me apresentou a quem seria uma das minhas grandes inspirações na arte contemporânea.

Cortei um papel imenso (71X52cm), achando que seria mais fácil em "tela grande" capturar, com a precisão necessária, as pinceladas do mestre da arte figurativa que brincava com as cores de maneira tão incrível.

Ledo engano. Percebi rapidinho que o tamanho exagerado aumentava a responsabilidade de traduzir o movimento que ele imprimia em suas telas, como se tudo, tinta, papel e pincel fluíssem em uma espécie de ritmo próprio. Um quê de fantasia e sonho que saia de suas cores inebriantes e marcadas.

RD conseguia passar uma cena para a tela com uma sensibilidade tão aguçada, que sempre que olhamos sua pintura temos a impressão de que no minuto seguinte ela ganhará vida e um novo movimento, para a seguir congelar novamente até que um outro olhar lhe devolva a história.


Pintar a arte de Richard Diebenkorn é entrar em um mundo paralelo onde ele paira como uma voz da consciência macia e terna. E assopra sua música em nossos ouvidos. Por isso, soube ali, pintando aquela menina que dormia, que não ia largá-lo nunca mais. Ele morreu em 1993, mas nasceu naquele dia em mim.


Outras moças retratadas por RD em momentos cotidianos e descontraídos ganharam minhas pinceladas. Moram hoje em cantos da minha casa e de amigos. Mas a "Menina com fundo florido" estava esperando sua hora de partir. Aguardava o destino chamar seu nome enquanto tirava sua soneca de moça que sonha.


Então foi assim que, em um sorteio no Instagram, lhe dei morada. O sorteio, que trouxe tanta gente que gosta de arte para me acompanhar, me deu, também, imensa felicidade por saber que aquela tela, tão significativa para mim, iria seguir seu rumo. Encontrar seu espaço no mundo. Sair da tutela da artista.


Voa menina! Leva um tanto do RD, de mim e de nós para sua nova casa.