• Helga

Complicada e perfeitinha

Atualizado: 11 de out.


_ Levanta e gira: 1, 2, 3! Abaixa e gira: 1, 2, 3! Um passo pro lado!

Seguíamos as palavras da professora numa coreografia ritmada. Segurando cabos de vassoura cortados ao meio entre as mãos, fazíamos os movimentos com entusiasmo e atenção. Os cabos seriam adornados mais tarde com pompons nas pontas e no lugar das palavras da professora haveria música. Muito chique.

_ Levanta e gira: 1, 2, 3! Abaixa e gira: 1, 2, 3! Um passo pro lado!

Lembro de sentir vento no rosto, calor do sol na pele e a fofura da areia do parquinho embaixo dos meus tênis. Com o cabo de vassoura entre as mãos e fazendo todos os movimentos direitinho eu me sentia parte de uma festa importante. Ali na área de recreio da escola não éramos uns pinguinhos de gente do pré-primário, mas artistas que se apresentariam logo mais na fanfarra.

_ Levanta e gira: 1, 2, 3! Abaixa e gira: 1, 2, 3! Um passo pro lado!

Foi então que a professora apareceu com um caderno, disse que era para continuarmos o compasso e começou a falar em um tom sério. Ar de bronca. As palavras iam saindo da sua boca e meus movimentos foram desandando até que parei com o cabo de vassoura entre as mãos e os braços esticados para cima. Era mesmo uma baita bronca.

_ Levanta e gira: 1, 2, 3! Abaixa e gira: 1, 2, 3! Um passo pro lado!

Alguém tinha feito uma lição muito mal feita. Não tinha caprichado. Não tinha levado a sério a atividade e ela estava muito brava. O dono ou dona do caderno tinha dado uma super bola fora. Coisa feia mesmo. O desespero da turma pesou o ar e eu podia jurar que todo mundo estava sentindo a mesma dor de barriga que eu. De quem seria aquele caderno? Difícil de saber quando todas as mães encapavam os cadernos com o mesmo papel vermelho quadriculado pedido pela escola. O suspense durou pouco.

_ Levanta e gira: 1, 2, 3! Abaixa e gira: 1, 2, 3! Um passo pro lado!

A dona do caderno era eu. Sim, a única que estava congelada com o cabo de vassoura no ar. Os movimentos do cabo passavam na minha cabeça junto com “lição mal feita”, “não caprichou”, “não levou a sério a atividade”.... E foi então que resolvi correr com a vergonha embaixo do braço. Soltei o cabo de vassoura e corri. Só lembro que corri o que pareceu uma corrida grande. Lágrimas escorriam no meu rosto e não me impediam de correr ainda mais. Não sei para onde corri. Agora com meus quarenta e tantos anos é uma informação que me escapa.

_ Levanta e gira: 1, 2, 3! Abaixa e gira: 1, 2, 3! Um passo pro lado!

Lembrando daquela coreografia com o cabo de vassoura e daquele caderno quadriculado me dou conta de que minha corrida nunca acabou. Ando correndo desde aquele dia em que carreguei a vergonha embaixo do sovaco bebendo lágrimas. Na minha maratona nunca deixei a vergonha escapar, mas meti embaixo do outro braço a perfeição como contrapeso. A perfeição que me faz entoar, dia sim outro também, os mantras “nunca faça nada mal feito” e “faça sempre algo além do arroz com feijão”.

_ Levanta e gira: 1, 2, 3! Abaixa e gira: 1, 2, 3! Um passo pro lado!

São essas palavras de ordem que guiaram minha corrida complicada e perfeitinha até aqui. São elas que ditaram com crueldade todas as minhas ações mais bem intencionadas. O medo da criança ainda não alfabetizada, que já havia feito uma lição tão ruim que desagradou a professora, vive nelas. Descubro, surpresa, que essa perfeição tão cultivada vem de uma rejeição. Sigo refazendo aquela lição. No capricho, assim como os movimentos que fazia com o cabo de vassoura para a fanfarra. A professora da escolinha teria orgulho de mim.

_ Levanta e gira: 1, 2, 3! Abaixa e gira: 1, 2, 3! Um passo pro lado!

A dona do caderno era eu. Fecho os olhos e estou com o cabo de vassouras entre as mãos e os braços esticados para cima. Não sinto mais dor de barriga, mas o vento no rosto, o calor do sol e a fofura da areia do parquinho nos meus pés. Não preciso mais refazer a lição. Sou uma artista imperfeita pronta para a festa.